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06/12/2017

Quando a compaixão falha: o paradoxo das grandes tragédias

Você deve se lembrar do caso de Mariana: em 05 de novembro 2015, o rompimento de uma barragem da Samarco lançou sobre a região uma enxurrada de lama, que soterrou distritos, poluiu o principal abastecedor da região - o Rio Doce - e fez centenas de vítimas, dentre as quais, 19 mortos.

Quem sobreviveu, ficou desabrigado e passou a viver sob condições precárias enquanto aguarda as indenizações da mineradora. Dois anos depois, o impacto não está nem perto de ser revertido.

De início, a comoção motivou diversas iniciativas solidárias. Além das doações do setor público, ONGs e outras formas de voluntariado, mais informais, se uniram para arrecadar recursos de assistências às famílias afetadas pelo desastre.

Uma campanha no site de crowdfunding Kickante chegou a arrecadar mais de R$ 70,000, distribuído entre três fundações escolhidas pelos criadores da campanha.

Com o tempo, porém, conforme perdia sua urgência, a tragédia foi sendo esquecida.

 

Quando a compaixão falha

 

Infelizmente, Mariana é apenas um dentre vários exemplos. Desastres naturais são apenas uma categoria dos problemas em grande escala que enfrentamos no mundo. Em todos os casos, contudo, um fenômeno se repete: o paradoxo da compaixão.

Ao mesmo tempo em que potencializam iniciativas solidárias, como observado recentemente no México, essa solidariedade é efêmera. É como se a compaixão tivesse um prazo de validade que, muitas vezes, não é nem o suficiente para mobilizar alguma assistência.

Um exemplo ainda mais próximo, no Brasil, é o da corrupção. Embora revoltados pela crise econômica e política que enfrentamos, e comovidos com aqueles prejudicados pela crescente desigualdade reforçada por nossa atual conjuntura, é como se não fôssemos capazes de agir. Algo nos segura, nos imobiliza diante do impacto de um problema tão abrangente.

Mas o quê?

Essa mesma pergunta foi feita por Paul Slovic, pesquisador, presidente do instituto de pesquisa Decision Research e parte do Conselho Global de Assistência Humanitária do Fórum Econômico Mundial.

Buscando entender por que reagimos de formas diferentes a tragédias individuais e a tragédias coletivas em larga escala, Slovic se comprometeu a estudar nossas respostas psicológicas aos desastres da humanidade e como elas afetariam nossa empatia.

A partir disso, desenvolveu o conceito de “colapso da compaixão”.

 

Por que nos preocupamos menos com mais gente

 

Logisticamente, o natural é que nos preocupemos mais com duas pessoas do que com uma, com três mais do que com duas, com quatro mais do que com três, e assim por diante, certo?

Então por que ao saber que 12,6 milhões de pessoas morrem anualmente devido à poluição ambiental não nos preocupamos de forma equivalente? Por que não nos sentimos igualmente motivados a agir como na ocasião do desastre de Mariana?

Quando e por que a compaixão falha?

De acordo com Slovic, a resposta é simples, embora tenha raízes complexas: 12,6 milhões de pessoas é gente demais.

Em um artigo colaborativo para o Huffington Post, o pesquisador detalha que ser humano tem um “limite emocional”. Uma preocupação que correspondesse à dimensão do problema nos sobrecarregaria, então o cérebro, basicamente, bloqueia o excesso de emoção.

De fato, a perspectiva de 12,6 milhões de morte por ano no mundo é muito maior do que a de 20 mortes em uma pequena região do nosso país, em um período curto de tempo. Além de ser um caso isolado, a preocupação com Mariana era, à época, “mais acessível” do nosso ponto de vista emocional.

Mas quando o problema cresceu - passando a envolver distintas variáveis, como a quantidade de pessoas ainda desabrigadas, a complexidade de se criar alternativas para o abastecimento da região e o fato de a tragédia, agora, ter se estendido por pelo menos 24 meses -, o bloqueio ocorreu.

Esse processo, na psicologia, é chamado de letargia.

 

Por que não somos solidários sempre

 

O que Slovic propõe em seus estudos é que, frente à magnitude de determinados problemas, nós somos incapazes de fazer escolhas - ou tomar decisões - por não conseguirmos pesar riscos e benefícios.

Quando, por exemplo, você faz um investimento, há uma racionalização que considera quanto você pode perder e quanto você pode ganhar naquele investimento; se a perspectiva de perda for muito alta, você não faz o investimento. Se, por outro lado, a perspectiva de ganhos for maior, você faz.

O mesmo ocorre quando tratamos da solidariedade. Entretanto, como as emoções desempenham um papel especialmente significativo neste caso, a racionalização não é tão simples. Soma-se a isso a proporção dos problemas, absurdamente elevada, e o cérebro se torna momentaneamente incapaz de processar os fatores envolvidos e te conduzir a uma decisão.

Assim, as grandes tragédias nos recordam o valor da vida, mas apenas enquanto conseguimos distinguir cada vida individualmente.

 

Como vencer a letargia

 

Devemos destacar que a letargia não vem da ausência de empatia, mas de uma sobrecarga de informações.

Por isso, é essencial que vejamos além dos dados, dos números, das estatísticas. Reverter a desumanização consequente desse reducionismo é o primeiro passo para que não pensemos em um conjunto de vítimas como algo abstrato e recuperemos a individualidade dos envolvidos.

Além disso, educar quanto aos impactos, detalhando as consequências e oferecendo alternativas de ajuda, colabora com o rompimento da letargia, conduzindo a uma racionalização que elucide quanto às escolhas possíveis, seus benefícios e seus riscos.

 

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